Antigamente, posso dizer que não compreendia o real significado da palavra "saudade". Talvez por causa do meu distanciamento emocional, a forma inicialmente escolhida de vivenciar a realidade deste mundo. Minha lentidão em senti-la fez com que eu a descobrisse da maneira mais intensa. Hoje, quando alguém diz que sente saudades de mim, isso é algo que me machuca um pouco. É que a minha saudade fundamental está associada à ideia de perda, uma experiência sempre dolorosa. Assim, se a provoco noutra pessoa, quando momentaneamente afastado, fico a pensar que estou infelicitando a quem quero bem. E parece que eu tenho uma verdadeira dívida com a palavra, de tanto que ela integra manifestações de apreço e carinho a mim dirigidas.
Sou consciente, contudo, de que a saudade é ingrediente que também deve entrar na composição do amor, este sentimento que dá um toque todo especial à vida. Pois, sem a saudade, o amor é irremediavelmente partido, seccionado. Saudade é a cola capaz de se esticar e que nos puxa, num átimo, para junto da pessoa amada com o pulo do nosso pensamento, jungindo corações que se querem por complemento.
Para quem nutria saudades das minhas postagens aqui, republico esta poesia que fala muito disso, em comemoração a uma data especial. Com meus agradecimentos a minha querida amiga pela gravação belíssima, destinada ao meu blog, e que acabou passando meses inaproveitada.
Autor: MILTON JOSÉ NEVES JÚNIOR
Na voz de Sereníssima
Oi.
Uma pausa demorada, lacrimosa.
Um oi que eu sei sem resposta.
Não o mesmo oi afetuoso que recebo de ti,
Assinalado por traços meigos
E por um desenho infantil sorridente.
É um oi de alguém que não sabe o que dizer,
Porque tudo girou num segundo.
Meu oi silencioso é a expressão do vazio
De quem demorou demais para registrar no papel
O que havia de mais importante.
Talvez achando que teríamos tempo...
Tempo de leres outro tipo de silêncio
Nas linhas do meu olhar,
Nas batidas do meu coração.
Sim, minha querida,
Sempre ficamos aturdidos
Com as obviedades da vida que nos surpreendem.
Nós dois, seres estratosféricos
E perdidos neste estranho mundo,
Sabíamos a sequência do porvir.
Cada passo que eu daria
Tu me antecipavas,
E outros tantos teus eu te dizia.
Mas, mesmo assim,
Essa brincadeira de sermos humanos
Fazia com que olvidássemos tudo
O que programáramos.
Porque brincar de ser feliz é esquecer,
E esquecendo eu fui feliz,
Somente por enquanto.
Imagina a minha dor inconsolável
Quando a tua presença amorosa e constante
Foi-me arrancada sem aviso.
Ou com a ignorância de todos os avisos,
Já que queríamos esquecer.
Até o deus inabalável que mora em mim
Sentiu a entropia das verdades eternas.
O sábio desmoronou seu castelo de conceitos.
O homem concentrou os cinco sentidos
Em uma única fenda da realidade.
E a criança finalmente chorou para fora
Tudo o que havia para chorar.
Hoje, cada pedacinho de lembrança
É meu tesouro sagrado.
Seguro a preciosa carta que escreveste,
Borrada de água salgada,
Enternecido pela delicadeza de tuas palavras.
E ainda ouço aquelas lindas canções
Que surgiam repentinamente dos teus lábios,
Para meu adormecer mais tranquilo.
Sempre um hino de louvor envolvendo o nome
Que resolvi portar no decurso desta vida.
A musicalidade da tua voz, me chamando,
Preenchia com flores o jardim
Da minha existência.
Mas tenho ouvido também
Muitas outras coisas depois que foste embora,
De um mundo que costuma apregoar suas asneiras.
Acusarão a minha falta de desapego,
E dirão que minha saudade é uma prisão
E um desassossego para ti.
Ah, pobres seres! Que não guardam como nós
A real dimensão do sentimento libertador
Que é o Amor.
Nunca formamos peso um para o outro,
Pensamento injusto de quem não testemunhou
Os vários estágios da nossa recíproca descoberta,
Realizada sem atropelos,
Cujas raízes transpassam a superfície
Onde jazem estagnados esses minúsculos amores
Que pululam pelo mundo.
Jamais tivemos dessas pequenezas
Que agrilhoam os espíritos dos que andam juntos.
Como ser teu cativeiro se tu moras em mim,
E eu em ti, meu lar abençoado?
Se muitos traços da minha personalidade evolucionária
São provenientes da tua pessoa?
Como agora posso abdicar de mim mesmo,
Se tu és a melhor parte do que sou?
Levanto a voz em defesa das almas
Que com as estações se fizeram gêmeas,
Sem retorcerem os caules em direção ao Sol
E nem se cobrirem de mútuas sombras.
De folhas verdes, refulgentes, airosas,
Iluminando a todos,
Iluminadas.
Teu amor sempre me deu tudo
Sem nada pedir em troca.
Assim tu agias com extrema naturalidade,
Deixando a mim tão leve, solto, feliz,
Que anelava imortalizar-me
Na rotina de agradar teu coração.
Antes de ti, as admirações desmedidas
E um querer sufocante ao meu espírito.
Contigo, aprendi o que é repousar
Na alma de quem nos ama
Sem essas miúdas inquietações.
Ah, amada!
Por quereres tudo somente pra mim,
Remeto de volta aquilo que sempre foi teu.
Essa felicidade minha
Que tão ardentemente anseias
Não é uma meta a ser alcançada,
E sim a compreensão de que estás comigo.
A tranquilidade que me desejas
Não é uma paisagem bucólica a procurar,
Ou um lago a refletir a luz da lua,
E sim minhas ideias
Repousando no teu colo invisível.
A saúde que me velas
Não é um bem-estar absoluto,
Mas a memória do meu próprio tempo
Nesse aprendizado de te merecer.
O êxito no qual me enxergas
Não é vivenciar os aplausos deste mundo,
Mas ostentar a bússola do nosso amor
Para circum-navegá-lo em segurança.
Os filhos que me queres
Não são os rebentos de minha e outra carne,
Antes a descoberta da paternidade de Deus
Num passeio à tua surpreendente história.
O amor que me buscas
Não é uma companheira substituta
Entretida com meus beijos,
E sim a valorização do ideal de mulher
Que deste a conhecer em ti mesma.
Minh´alma sempre será uma sala de visitas
Toda colorida e festiva,
Cheia de cartazes de boas-vindas,
À espera da minha bem-amada.
E a saudade é apenas uma folhinha do calendário
Que venho riscando dia-a-dia,
Naquela ansiedade às vezes dolorida,
Muitas vezes risonha e contemplativa,
De ter o teu amor de volta
Quando o mundo girar novamente.
Escrevo, finalmente,
Para resumir o conteúdo
Desta carta de resposta que nunca recebeste,
Mas cuja última linha
É sempre recebida...
Eu te amo demais, deusa minha.

4 comentários:
vc esta sempre presente no meu coracao. Na minha alma.
Se faco bico e so pra receber mais carinho. =)
Independente desses intervalos de tempo, o q sinto permanece intacto.
Ja disse q TE AMO hj?
Bjs poeta. Bjs meu anjo.
n precisa postar isso:
esqueci de assinar né?
bjsss
Lila
Nem precisava assinar mesmo, seu jeito é inconfundível.
Beijos. @}-;-'--
uiaaa q fofinhooo!
Te amo dimaiiiiiiiiii
bjs Gatão
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