Quando telegrafamos saudade às pessoas que amamos, não importa onde estejam, recebemos de volta notícias da nossa própria fé; a recordação daquilo que deve impulsionar a nossa jornada pela vida. É sempre imperioso extrair força, coragem e senso de propósito das melhores lembranças, embora existam aqueles momentos em que gostaríamos que elas integrassem fisicamente o minuto que as tocamos.
Um livro, uma poesia que escrevemos, quaisquer palavras deitadas num papel, são como o efeito memória de um ponteiro ininterrupto; outra forma que temos, para além da saudade, de procurar vencer as cercanias do tempo e a finitude da nossa própria existência humana. A saudade tem o poder até de criar religiões: uma saudade coletiva das palavras de Jesus, de Buda, de Maomé, por exemplo. Já a palavra escrita é sempre um registro permanente das variadas formas e manifestações da saudade.
Não posso tocar fisicamente o minuto que já passou, mas alguns registros do apressado ponteiro da alma mais doce e feminina que conheci ainda estão comigo guardados, e trazem sempre o afago necessário, nas horas de espera, para a minha alma vez ou outra atribulada.
O maior presente que eu poderia ter recebido em minha vida também está descrito nestas linhas, ao falar da realização do amor maior. O texto abaixo é referente ao capítulo 16 de um livro ainda não publicado, que ela deixou sob meus cuidados antes de partir, e que terá, no instante oportuno, sua vez e lugar. Porém, ao telegrafar aos céus minha saudade mais intensa, acabei reencontrando-nos nesta emocionante leitura, que não consigo deixar de revelar imediatamente aqui.
Autora: EVELINN
Você já recebeu algum presente envolto num embrulho demorado de abrir? Um pacote lindo que traz logo a sensação de que nele está contido tudo aquilo que sempre sonhou?
Muitas vezes nos decepcionamos com a surpresa. Mas quando é algo que queríamos muito, nosso coração explode de alegria. É como se alguém massageasse com carinho a nossa alma. E com pessoas também acontece isso. Pena que muitas só reparam no embrulho e deixam de sonhar com o conteúdo.
Desde criança me sentia como prisioneira numa nave, só e perdida em meio a algum planeta estranho. Tinha a certeza de que era uma eremita. Em busca do quê? Não sabia a resposta. Sempre fui apaixonada pelas pessoas, mas dentre elas faltava alguém.
Alguém que me enxergasse tal como sou, que conseguisse me decifrar e que sentisse toda a dimensão de quem eu realmente era. Minha alma estava ausente de tudo, a ponto de desistir. Acreditei que era diferente ou anormal, me via num mundo onde só existiam estrangeiros, sendo impossível a comunicação.
Em minha cabeça eu procurava me conformar. Comecei a ouvir as pessoas. Assuntos que não preenchiam minha vida. Como se elas fossem habituadas a viver condicionadas ao irreal, ao ilusório.
Era um mundo de mentiras, solidão, fantasias, crenças escravas e medo da Verdade Infinita. Meus anseios viajavam para longe, necessitavam muito mais do que aquilo. Já as pessoas se bastavam com tão pouco. Será que receavam se deparar com suas íntimas verdades? Não sei.
Comecei a usar essa mesma roupagem, por falta de opção. Embora algumas vezes me pegasse tentando redescobrir o mundo que havia perdido. Mas em que lugar estaria?
Meu ar era só metade, meu choro só metade, meu alimento só metade, minha vida só metade. Teria que viver assim até quando?
Ele chegou, estava ao meu lado há muito tempo. Acredito que sempre esteve, mas eu, assim como tantas pessoas que se deparam com algo especial, tive receio de abrir o presente. Pois não era atrativo, vinha com marcas e colas, não possuía um belo laço. Um embrulho totalmente selado. Em suas andanças já tinha sido um belo pacote, mas fora tratado com indiferença. Alguém ao abri-lo não deu valor aos detalhes daquele presente, talvez porque não fosse tão luxuoso. Mas se esquecendo de que é impossível alguém, depois de conhecê-lo, viver sem ele. Imagine aquele presente que enfeita a vida, a casa, chama a atenção porque tem um brilho diferenciado. Uma relíquia, uma arte que não podemos definir de maneira adequada, se não a enxergarmos com sabedoria, inteligência e conhecimento. Ele se destacava.
No dia que se permitiu ser aberto, algo em mim começou a mudar. Senti um poder que vinha de todo o meu ser, apossando-se do meu corpo e das minhas vontades. Uma viagem para dentro do infinito. Ele falava a minha língua, entendia o que eu sentia. Estranho, sim, era viver no mundo isoladamente, sem encontrar a suprema existência. Eu acabara de encontrar a minha. Tinha um nome com sonoridade musical, uma voz que me fazia calar e que ecoava dentro de mim. Era como um abraço demorado.
Milton, aquele cavalheiro, que também foi um andarilho por toda a sua existência. Ambos sentíamos a necessidade dessa presença constante, um imã invisível que nos fazia atados um ao outro.
O meu príncipe, alto, belo e de uma sabedoria inigualável. Ele tinha visitado mundos misteriosos, já havia participado de inúmeras batalhas, e carregava em sua bagagem tanta dor, experiência, coragem, medos e amor.
Sabia de cor onde estava cada cicatriz das minhas dores. Seu olhar de ternura se perdia no meu olhar. Era como se nesse momento o nosso cansaço fosse derrotado, juntos reencontrávamos o merecido repouso. Como se a minha nave enfim alcançasse um mundo novo irradiado de bem-estar. Estrelas e sóis fecundando a minha alma.
Lembrara-me da Verinha, minha boneca de infância, quando lhe dizia que um dia o pássaro brilhante viria nos buscar. ELE CHEGOU, VERINHA! Não tem formas de pássaro, e sim de homem. Mas ele me faz voar para um mundo onde posso sentir a brisa junto à nossa árvore e o perfume das flores do campo. Ele tem o fascínio de me fazer sentir vontade de chorar... Porém um choro de alegria, como se minhas lágrimas apagassem toda a dor do meu passado.
ELE É O AMOR.

4 comentários:
Milton passei para conhecer seu blog ele é not°10, show, fantástico, muito maneiro com excelente conteúdo você fez um ótimo trabalho desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família e aceitei você como amigo no diHITT
Um grande abraço e tudo de bom
Seu blog está muito bom de ler.
Adorei esse texto sobre saudade. Emocionante.
abraços!!!!!
fico grata pelo comentário em meu blog, feliz!!!!!
Milton, que linda carta. O amor muitas vezes tem dono, o dono de nossos sentimentos mais puros e sinceros. Beijos
Milton, belas páginas e lindos textos...
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