quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO, COM O DESPERTAR DE UMA NOVA CONSCIÊNCIA

Para o ano de 2012, além do aprofundamento da crise dos paradigmas sociais e econômicos que já estamos assistindo e das alterações climáticas e geológicas pelas quais atravessa o nosso planeta, são prometidos acontecimentos extraordinários que surpreenderão toda a humanidade. É tempo de começar a tornar-se à vista e aflorado muito do que hoje permanece oculto. Cuida-se do período de maior honestidade da nossa evolução coletiva, com revelações acidentais e/ou inevitáveis de certas verdades, mas que reclama também enorme preparação espiritual e emocional das pessoas. Não ficaria em paz com os ditames da consciência se não vencesse meu desconforto diante da exposição pessoal e trouxesse essa nota em benefício daquelas amizades que estimo tanto, mesmo sabendo que a maioria fechará os olhos para isto, considerando-me detentor de uma visão destoante do pensamento comum, que apenas comemora essa passagem cronológica com esperança, fé e otimismo, sentimentos aos quais de modo algum sou infenso. Entendo, porém, que as percepções que o ser humano carrega da realidade se tornam facilmente volúveis nas horas mais prementes, quando esgotado o rotineiro senso de direção. Daí que meus votos de paz, harmonia e felicidade para o ano vindouro, esse estado de espírito que deve ser imune às circunstâncias da vida material, se fazem acompanhar do desejo de que os corações estejam despertos e as mentes instruídas, a fim de que ninguém seja demasiadamente surpreendido. Muita paz e muita luz sempre!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

AMO COMO O AMOR AMA



Tenho estado absolutamente afastado das atualizações do meu blog, por razões de saúde e de outros afazeres meus, além da mais completa falta de poesias pessoais inéditas a serem compartilhadas. Nessas circunstâncias, valho-me das obras de grandes autores no intuito de apresentar gravações feitas por uma estimada amiga, comovente toda vez em sensíveis leituras, e faço da sua voz a minha para quebrar meu silêncio prolongado.

Que haja sempre muita ternura, amor, beleza e poesia neste mundo, tocando e penetrando os corações como sementes de paz!
 


Autor: FERNANDO PESSOA

Na voz de Sereníssima

Trecho do fragmento XXI, Terceiro Tema, do livro "Primeiro Fausto"

(…)
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.

E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma 'strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.

Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe...

Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

EROS E PSIQUE




Autor: FERNANDO PESSOA

Na voz de Sereníssima

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

PEQUENINO MORTO




Autor: VICENTE DE CARVALHO

Na voz de Sereníssima

Tange o sino, tange, numa voz de choro
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te...
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
De vestido novo.

Como aquela imagem de Jesus, tão lindo
Que até vai levado em cima dos andores,
Sobre a fronte loura um resplendor fulgindo
- Com a grinalda feita de botões de rosas
Trazes na cabeça um resplendor de flores...
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
Florescido em rosas!

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham...
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge das cobiças dessas fundas valas.
A pedir que as encham.

Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho... A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noite;
Por aqui, só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre... É a hora
Do cair da noite...

Pela Ave-Maria, como procuravas
Tua mãe!... Num eco de sua voz piedosa,
Que suaves coisas que tu murmuravas,
De mãozinhas postas, a rezar com ela...
Pequenino, em casa, tua mãe saudosa
Reza a sós... É a hora quando a procuravas...
Vai rezar com ela!

E depois... teu quarto era tão lindo! Havia
Na janela jarras onde abriam rosas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóis de linho no colchão de penas.
Que acordar alegre nas manhãs cheirosas!
Que dormir suave, pela noite fria,
No colchão de penas...

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregam a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça, e espalha-a, debruçado à beira
Dessa cova funda?

Vais ficar sozinho no caixão fechado...
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! — Pequenino!... É tarde!...
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando...

Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme
Noite sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca...
Tão sozinho sempre por tamanha noite!...
Pequenino, dorme! Pequenino dorme...
Nem acordes nunca!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A CARTA QUE NUNCA RECEBESTE

A carta que nunca recebeste

Antigamente, posso dizer que não compreendia o real significado da palavra "saudade". Talvez por causa do meu distanciamento emocional, a forma inicialmente escolhida de vivenciar a realidade deste mundo. Minha lentidão em senti-la fez com que eu a descobrisse da maneira mais intensa. Hoje, quando alguém diz que sente saudades de mim, isso é algo que me machuca um pouco. É que a minha saudade fundamental está associada à ideia de perda, uma experiência sempre dolorosa. Assim, se a provoco noutra pessoa, quando momentaneamente afastado, fico a pensar que estou infelicitando a quem quero bem. E parece que eu tenho uma verdadeira dívida com a palavra, de tanto que ela integra manifestações de apreço e carinho a mim dirigidas.

Sou consciente, contudo, de que a saudade é ingrediente que também deve entrar na composição do amor, este sentimento que dá um toque todo especial à vida. Pois, sem a saudade, o amor é irremediavelmente partido, seccionado. Saudade é a cola capaz de se esticar e que nos puxa, num átimo, para junto da pessoa amada com o pulo do nosso pensamento, jungindo corações que se querem por complemento.

Para quem nutria saudades das minhas postagens aqui, republico esta poesia que fala muito disso, em comemoração a uma data especial. Com meus agradecimentos a minha querida amiga pela gravação belíssima, destinada ao meu blog, e que acabou passando meses inaproveitada.



Autor: MILTON JOSÉ NEVES JÚNIOR

Na voz de Sereníssima

Oi.

Uma pausa demorada, lacrimosa.
Um oi que eu sei sem resposta.
Não o mesmo oi afetuoso que recebo de ti,
Assinalado por traços meigos
E por um desenho infantil sorridente.
É um oi de alguém que não sabe o que dizer,
Porque tudo girou num segundo.

Meu oi silencioso é a expressão do vazio
De quem demorou demais para registrar no papel
O que havia de mais importante.
Talvez achando que teríamos tempo...
Tempo de leres outro tipo de silêncio
Nas linhas do meu olhar,
Nas batidas do meu coração.

Sim, minha querida,
Sempre ficamos aturdidos
Com as obviedades da vida que nos surpreendem.
Nós dois, seres estratosféricos
E perdidos neste estranho mundo,
Sabíamos a sequência do porvir.
Cada passo que eu daria
Tu me antecipavas,
E outros tantos teus eu te dizia.
Mas, mesmo assim,
Essa brincadeira de sermos humanos
Fazia com que olvidássemos tudo
O que programáramos.
Porque brincar de ser feliz é esquecer,
E esquecendo eu fui feliz,
Somente por enquanto.

Imagina a minha dor inconsolável
Quando a tua presença amorosa e constante
Foi-me arrancada sem aviso.
Ou com a ignorância de todos os avisos,
Já que queríamos esquecer.
Até o deus inabalável que mora em mim
Sentiu a entropia das verdades eternas.
O sábio desmoronou seu castelo de conceitos.
O homem concentrou os cinco sentidos
Em uma única fenda da realidade.
E a criança finalmente chorou para fora
Tudo o que havia para chorar.

Hoje, cada pedacinho de lembrança
É meu tesouro sagrado.
Seguro a preciosa carta que escreveste,
Borrada de água salgada,
Enternecido pela delicadeza de tuas palavras.
E ainda ouço aquelas lindas canções
Que surgiam repentinamente dos teus lábios,
Para meu adormecer mais tranquilo.
Sempre um hino de louvor envolvendo o nome
Que resolvi portar no decurso desta vida.
A musicalidade da tua voz, me chamando,
Preenchia com flores o jardim
Da minha existência.

Mas tenho ouvido também
Muitas outras coisas depois que foste embora,
De um mundo que costuma apregoar suas asneiras.
Acusarão a minha falta de desapego,
E dirão que minha saudade é uma prisão
E um desassossego para ti.
Ah, pobres seres! Que não guardam como nós
A real dimensão do sentimento libertador
Que é o Amor.
Nunca formamos peso um para o outro,
Pensamento injusto de quem não testemunhou
Os vários estágios da nossa recíproca descoberta,
Realizada sem atropelos,
Cujas raízes transpassam a superfície
Onde jazem estagnados esses minúsculos amores
Que pululam pelo mundo.

Jamais tivemos dessas pequenezas
Que agrilhoam os espíritos dos que andam juntos.
Como ser teu cativeiro se tu moras em mim,
E eu em ti, meu lar abençoado?
Se muitos traços da minha personalidade evolucionária
São provenientes da tua pessoa?
Como agora posso abdicar de mim mesmo,
Se tu és a melhor parte do que sou?
Levanto a voz em defesa das almas
Que com as estações se fizeram gêmeas,
Sem retorcerem os caules em direção ao Sol
E nem se cobrirem de mútuas sombras.
De folhas verdes, refulgentes, airosas,
Iluminando a todos,
Iluminadas.

Teu amor sempre me deu tudo
Sem nada pedir em troca.
Assim tu agias com extrema naturalidade,
Deixando a mim tão leve, solto, feliz,
Que anelava imortalizar-me
Na rotina de agradar teu coração.
Antes de ti, as admirações desmedidas
E um querer sufocante ao meu espírito.
Contigo, aprendi o que é repousar
Na alma de quem nos ama
Sem essas miúdas inquietações.

Ah, amada!
Por quereres tudo somente pra mim,
Remeto de volta aquilo que sempre foi teu.

Essa felicidade minha
Que tão ardentemente anseias
Não é uma meta a ser alcançada,
E sim a compreensão de que estás comigo.

A tranquilidade que me desejas
Não é uma paisagem bucólica a procurar,
Ou um lago a refletir a luz da lua,
E sim minhas ideias
Repousando no teu colo invisível.

A saúde que me velas
Não é um bem-estar absoluto,
Mas a memória do meu próprio tempo
Nesse aprendizado de te merecer.

O êxito no qual me enxergas
Não é vivenciar os aplausos deste mundo,
Mas ostentar a bússola do nosso amor
Para circum-navegá-lo em segurança.

Os filhos que me queres
Não são os rebentos de minha e outra carne,
Antes a descoberta da paternidade de Deus
Num passeio à tua surpreendente história.

O amor que me buscas
Não é uma companheira substituta
Entretida com meus beijos,
E sim a valorização do ideal de mulher
Que deste a conhecer em ti mesma.

Minh´alma sempre será uma sala de visitas
Toda colorida e festiva,
Cheia de cartazes de boas-vindas,
À espera da minha bem-amada.
E a saudade é apenas uma folhinha do calendário
Que venho riscando dia-a-dia,
Naquela ansiedade às vezes dolorida,
Muitas vezes risonha e contemplativa,
De ter o teu amor de volta
Quando o mundo girar novamente.

Escrevo, finalmente,
Para resumir o conteúdo
Desta carta de resposta que nunca recebeste,
Mas cuja última linha
É sempre recebida...

Eu te amo demais, deusa minha.

terça-feira, 12 de abril de 2011

HOLOGÊNESE DO POETA

rosa-amarela_2

Autor: MILTON JOSÉ NEVES JÚNIOR

Para uma nova amiga.

Ah Viviane! Queria tanto poder agradar teu coração,
Preservar a tua gentil impressão...
Mas notícias da minha escrita esmaecida
Há muito que não saem de mim.

Meus versos, de tão limitados e singelos,
Talvez nem mereçam ser chamados assim.

Porém, eis o esforçado rodólogo ou florista,
Hologênese deste poeta,
A mostrar da amizade uma linda rosa amarela,
Que já era nossa à tua espera em meu jardim.

@}-;-'--

quarta-feira, 16 de março de 2011

MENINO BONITO

Emocionado! Essa música, em sua voz, é muito significativa para mim, história que já contei AQUI. Amei o presente! Linda e enfeitiçante mesmo é essa sua apresentação, agora em vídeo.

Adorei o
BEIJA-FLOR também.

Beijo carinhoso.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

DEUSES DO MUNDO ANTIGO

Eis o texto que me pediu, Rita. Aproveito e disponibilizo aqui também, por ser pertinente à temática deste blog.

Quando lemos poesias e algumas vezes trechos de prosa em qualquer idioma atual, encontramos, a cada passo, momentos inspirados na mitologia grega. Dela temos notícia através, principalmente, dos nomes e proezas de muitos dos deuses do mundo antigo que os gregos primitivos adoravam. Se não soubermos o significado desses nomes, estaremos perdendo muita coisa de belo existente tanto na literatura como nas artes plásticas, antigas e modernas. Por conseguinte, vamos dar uma relação dos mais importantes. Servem para nos mostrar o pensamento daquela época e também a luta que empreenderam para compreender a vida. Os romanos tinham deuses correspondentes.

OS DEUSES DO MUNDO ANTIGO

O espírito greco-romano procurava explicar os fatos que se desenrolavam em seu mundo, lançando mão de uma fértil imaginação. Tudo aquilo que não podia entender julgava ser obra divina e criou uma religião fantasista, tendo chegado a dramatizar uma numerosa família de deuses. O pensamento grego e mui especialmente a arte helênica dominaram o espírito romano, de sorte que se deu uma fusão das mitologias das duas raças. Os deuses gregos e os romanos, que serviam para representar ideias semelhantes, foram frequentemente identificados, ora pelo nome grego, ora pelo nome latino. Por isso encontramos a cada passo dois nomes para um só deus. Pesquisas modernas mostraram-nos que houve erro nessa afirmativa e que frequentes são as flagrantes diferenças entre os deuses gregos e romanos que associamos.

Por exemplo, a deusa grega Palas Atenas é geralmente aceita com o nome romano de Minerva, o Zeus grego como o Júpiter latino, Artemis como Diana, Hera como Juno e assim por diante; entretanto os estudiosos de mitologia apontam-nos diferenças.

Sendo aconselhável que tenhamos um conhecimento geral de todas essas coisas, daremos aqui um escorço baseado nas similaridades mais pronunciadas. O nome latino é dado em primeiro lugar e o grego depois.

Os gregos povoaram o mundo com uma variedade de divindades correspondentes a todos os espetáculos belos e terríveis do mundo e a todos os poderes e processos da natureza.

Em sua imaginação prodigiosa não existia estrela que brilhasse no céu, nuvem que obscurecesse a luz solar ou vento que ondulasse a folhagem que não tivesse um deus a presidir-lhes a ação.

Géia ou Terra, eles representavam como mãe de todas as coisas terrestres e casada com Cœlum (Urano), o Céu. O Homem era originário de um pedaço de Terra, saturado pela água e aquecido pelos raios do Sol, e, quando morria, sua venerável mãe o reintegrava em seu seio.

Por conseguinte todas as coisas eram trabalho dos deuses. Este foi o espírito com que a mais intelectual das raças antigas interpretou a vida e o mundo em que viveu. Algumas divindades eram próximas e familiares, enquanto que outras eram distantes e cruéis. Os gregos conceberam o Olimpo, sua mais elevada montanha nos limites dá Macedônia e Tessália, de uma altura de aproximadamente 3.300 metros, como sendo a residência dos maiores deuses. Lá Zeus, depois identificado como Júpiter, tinha o seu palácio.

Do Olimpo Júpiter irradiava todo o seu poder sobre os outros deuses; ao Olimpo ele os convocava. Esse monte foi escolhido como retiro e habitação porque era o mais elevado dos picos da Grécia e os poetas imaginaram que ele tocava o céu. Os helênicos chamavam olímpicos os doze deuses principais, mais conhecidos pelos seus nomes latinos, a saber: Júpiter, Netuno, Plutão, Marte, Vulcano, Apolo, Vesta, Juno, Minerva, Diana, Vênus e Ceres. Os nomes gregos para estes e outros deuses são dados nas linhas seguintes, depois dos seus correspondentes latinos.

Júpiter (Zeus), filho de Saturno e Réia, foi o rei dos deuses e dos homens. Habitava o Olimpo e, com um aceno, poderia abalar o Universo. Poupado à crueldade de Saturno por sua mãe, Júpiter foi confiado aos cuidados de pastores e alimentado com leite de cabra. Quando cresceu destronou o pai, mas, antes que pudesse conquistar o lugar, teve de combater temíveis gigantes que arremessavam sobre os deuses tremendos calhaus. Alguns destes, caindo no mar, formaram as ilhas, outros as montanhas. Júpiter casou-se com Juno. Quinta-feira (em latim Jovis dies, que deu origem à palavra francesa jeudi) foi consagrada a Júpiter. O rei dos deuses é, geralmente, representado como um homem de compleição atlética sentado num trono; na mão direita tem um feixe de raios e na esquerda a vitória; seu cetro é uma águia.

Juno (Hera) foi a rainha do céu. Presidia a casamentos e nascimentos. É representada como uma respeitável matrona, conduzindo um cetro ou coroa; um pavão chamado Argos está sempre a seu lado. Em Roma seu festival era chamado Matronália.

Saturno (Cronos, que significa "tempo"), era filho da Terra e casado com Réia. Temendo que seus filhos lhe usurpassem o poder, devorava-os ao nascerem, simbolismo para o tempo, que consome nossas vidas. Todavia, Réia conseguiu salvar Júpiter, Netuno, Plutão e Juno. Saturno, destronado por seu filho Júpiter, refugiou-se numa parte da Itália chamada Lácio, onde se tornou rei dos mortais e foi tão bom para eles que liberdade e igualdade prevaleceram e teve seu nome celebrado em grandes festividades chamadas Saturnais. Saturno é representado como um velho curvado pela idade e carregando uma pequena foice. Também o vemos representado envolto em véus, provavelmente porque o Tempo é obscuro e coberto por um véu indevassável.

Netuno (Posseidon) é o deus do mar, em cujas profundidades luminosas está o seu palácio. Quando saía, atrelava ao seu carro uns cavalos de pés de bronze e crina de ouro. A sua passagem as águas se abriam alegremente. Era esposo de Anfitrite e irmão de Júpiter.

Plutão (Rades) deixou aos irmãos Júpiter e Netuno o império dos céus e das águas e recebeu o reino da Morte, no seio da terra. Desposou Coré, filha de Deméter, a qual, sob o nome de Perséfone, com ele passa a terça parte do ano; seu quarto nupcial é o túmulo. Encerrado em seu palácio infernal, envia aos campos de batalha as Queres (filhas da Noite), que enterram as unhas nos guerreiros feridos e os conduzem para o Tártaro. As almas descem pelo Estige, rio que desemboca no Aqueronte, o qual atravessam numa barca conduzida por Caronte; este barqueiro cobrava de cada alma um óbolo, daí o velho costume de porem sob a língua dos cadáveres uma moeda.

Minerva (Palas Atenas) foi a deusa da sabedoria, das ciências e das artes. Ela ficou famosa pela discussão mantida com Netuno pela posse de Atenas, à qual foi dado o seu último nome. Essa deusa superou as demais e Júpiter nada lhe negava. Tudo que ela prometia aos mortais infalivelmente acontecia. Atenas construiu em sua homenagem o famoso Pártenon, para o qual Fídias esculpiu a estátua em ouro e marfim. De acordo com os diversos aspectos em que se apresenta, Minerva usa uma roca, uma lança, um elmo ou um raminho de oliveira. A coruja e o galo lhe estão sempre próximos.

Vesta (Réstia) foi a deusa do fogo. Seu nome significa "coração e lar". Desde os mais recuados tempos da Ásia e da Grécia, seu culto consistia principalmente em manter aceso um fogo votivo e em Roma essa tarefa sagrada era atribuída a virgens chamadas vestais, ou melhor, às Virgens Vestais. Esse serviço era tão importante que aquela que deixasse o fogo extinguir-se era passível de severo castigo. Vesta era representada envolta num vestido branco coberto por um manto purpúreo, tendo nas mãos um facho ou uma lâmpada.

Apolo, filho de Júpiter, nasceu na ilha de Deos. Exilado do Olimpo, encontrou refúgio na corte do rei Admeto e perambulou pela terra por muito tempo, até que seu pai lhe confiou a tarefa de espalhar a luz pelo mundo. Desta forma ApoIo passou a dirigir o carro do Sol e gozou de juventude eterna. ApoIo é também o deus da música, das artes, da medicina e da poesia. Nas estátuas ApoIo foi representado por um belo jovem com um arco, e as flechas representam os raios do Sol.

Diana (Artemis), filha de Júpiter, irmã gêmea de ApoIo, teve diversas atribuições. Na terra ela era Diana, a deusa da caça e das florestas; no céu era Phœbe (Selene), deusa da Lua; nas regiões mais inferiores era Hécate. As moças solteiras, com especialidade, tinham-na como padroeira. O mais famoso templo de Diana era em Éfeso, mas a Diana de Éfeso era na realidade uma divindade distinta, de origem asiática. Essa deusa é geralmente representada de cabeça descoberta, em trajes de caça, com um carcás ao ombro ou um crescente na altura da sobrancelha, simbolizando a Lua.

Ceres (Deméter) ensinava os homens a arar a terra, semear, cultivar e colher. Na Grécia o seu mais famoso templo estava situado em Elêusis, onde eram celebrados os rituais em honra à deusa. Vemos, na maioria das vezes, Ceres representada como um viajante apressado. Está procurando sua filha Prosérpina e nessa busca passou a maior parte de sua vida. É também representada como uma matrona bonachã adornada com uma grinalda de cereais, símbolo da fertilidade.

Vulcano (Hefaístos), filho de Júpiter e de Juno, era extremamente feio, disforme e estropiado, porém o mais habilidoso dos deuses. Costumava fazer todas as espécies de trabalhos. Fez trabalhos de joalheria para as deusas, forjou raios para Júpiter e armas para Aquiles. Vulcano foi o rei do ferro, bronze, ouro e prata. Em suas estátuas ele, que é patrono dos ferreiros, tem na mão direita um martelo e na esquerda tenazes. Os poetas conceberam o seu reino numa ilha coberta de rochas, do pico das quais saíam rolos de fumo e fogo. Daí a origem da palavra "vulcão".

Mercúrio (Hermes), filho de Júpiter, foi o deus das mensagens, patrono dos viajantes, comerciantes, e mesmo dos ladrões. Conversador emérito, descuidado de tudo, gozando do dom de ubiquidade, sempre pronto a cooperar, desempenhava um papel muito importante no Olimpo e na terra. Nas estátuas o chapéu e os pés estão adornados com duas pequenas asas, símbolos de rapidez; carrega uma bolsa que é o emblema do comércio ou o famoso bastão com cobras que simboliza seu mágico poder. Quarta-feira (em latim Mercurii dies que deu origem à palavra francesa mercredi) foi consagrada a Mercúrio pelos antigos.

Marte (Ares) era o deus da guerra. Embora não fosse invencível, Marte era sempre acompanhado pela Vitória. Nos bronzes antigos êle era representado como um homem forte armado de elmo, lança e escudo. Terça-feira (em francês mardi, do latim Martius dies), era o seu dia consagrado.

Vênus (Afrodite) costumava presidir aos prazeres do amor, juntamente com seu filho Cupido ou Eros, os casamentos e nascimentos e quaisquer assuntos amorosos. Vênus ficou famosa pelo prêmio que lhe foi conferido por Páris pela sua beleza, num certame com Juno e Minerva. Vênus é jovem, bela e sorridente. Algumas vezes seus pés repousam numa concha, outras está sentada numa carruagem puxada por dois cisnes. Muitos escultores tentaram fazer estátuas de Vênus e a mais conhecida é a famosa Vênus de Milo, descoberta na localidade do mesmo nome em 1820, atualmente talvez o maior tesouro do Museu do Louvre, em Paris. Sexta-feira (em francês vendredi, do latim Veneris dies), era o seu dia.

Baco (Dionísio), filho de Júpiter, ensinou o homem a cultivar os vinhedos e foi endeusado. Os trabalhos seus eram muito importantes. Sileno, seu companheiro, foi quem cuidou dele no princípio; em seguida as ninfas, as Bacantes, sátiros e pastores. Grandes orgias, as Bacanais, eram feitas em sua honra. Baco é geralmente representado cavalgando um barril, coroado com grinaldas de folha de parreira ou com dois chifres, emblema do poder.

Têmis era a deusa da equidade, da lei e da paz. No Olimpo sentava-se ao lado de Júpiter e auxiliava o deus como consultor de justiça. É representada com uma balança e uma espada. Vemo-Ia com os olhos vendados como que a indicar imparcialidade no seu julgamento.

Cupido (Eros), filho de Vênus, foi o deus do amor, ou melhor, o próprio amor. Logo que Júpiter o viu nascer, calculando os trabalhos que lhe iria dar, mandou que a mãe se desfizesse dele; mas Vênus escondeu a criança na floresta onde a alimentou com leite de cabra. Lá ele fez o seu famoso dardo e experimentou-o em animais, antes de fazê-lo contra homens. Cupido é geralmente representado como uma criança de seis a sete anos, com asas. Munido de arco, aljava e setas aguçadas, perambula entre deuses e homens. Sua violenta paixão por Psiquê, cuja beleza causou inveja a Vênus, terminou em casamento. O culto de Cupido é associado ao de Vênus.

Íris foi a mensageira dos deuses, especialmente de Juno. Íris era representada como uma linda moça provida de asas brilhantes. Os poetas supõem que o arco-íris era a trilha de seus pés quando subia aos céus com uma mensagem.

Hebe (Juventas) servia as mesas dos deuses no Olimpo. É vista com uma coroa de flores e uma taça nas mãos. O nome de Hebe é associado ao de Ganimedes, que tomou seu lugar quando Hebe casou.

Hércules (Heraclés) era filho de Júpiter e um ser mortal. Juno odiava-o e ele foi obrigado a realizar doze trabalhos considerados impossíveis. Quando a parte mortal acabou, foi transladado ao Olimpo e dado em casamento a Hebe.

As Graças (Cárites) eram em número de três: Aglaia, Talia e Eufrosina. Eram a personificação da graça e da beleza e seu poder se estendia a todos os humanos. Elas propiciavam aos homens alegria, graça, humor e boas maneiras.

As Musas, nove irmãs, eram cada uma o símbolo de uma arte: Clio, a musa da história, lê num livro; Euterpe, a musa da poesia lírica, inventou a flauta e é representada tocando-a; Talia presidia à comédia e segura uma máscara tendo um aspecto alegre; Melpômene representa a tragédia e, tendo um aspecto grave, conduz uma espada; Terpsícore, a dança, é uma linda moça jovem e cheia de vida; Érato, a deusa do lirismo, é uma linda e alegre jovem coroada de rosas; Polímnia, a musa do hino sublime, aparece com uma atitude pensativa; Urânia, musa da astronomia, usa um vestido estrelado e um globo; Calíope, a musa da poesia épica e da eloquência, é representada como uma jovem circunspeta. Pégaso, o cavalo alado, pertencia às Musas.

As Horas simbolizavam não as divisões do dia, porém as do ano. Eram as deusas das estações, responsáveis pela abertura e fechamento das portas do Olimpo, pela educação das crianças e pelas regras gerais da existência humana. Eis por que sempre compareciam aos casamentos.

As Parcas (Moirӕ) eram três irmãs: Cloto, Láquesis e Atropos. Imutáveis em seus engenhos, elas mantinham um fio misterioso que significava o curso da vida e nada poderia impedi-Ias de o cortar quando a hora de cada um chegasse. Cloto, sentada, tece o fio; Láquesis o enrola no tear; e Atropos impiedosamente corta o fio que se supõe medir a existência de cada mortal.

OS DEUSES MENORES

Para os antigos, onde existisse vida existiriam deuses. Desse modo os gregos povoaram os céus com divindades. Embora não tão poderosas como os deuses principais, as divindades menores tinham certo poder como, por exemplo, guiar as nuvens, ajudar os ventos a subirem e assim por diante. Encarregados de missões especiais, esses deuses eram os assessores dos grandes poderes olímpicos e confidentes dos mortais.

Prometeu iludiu a confiança de Júpiter e roubou o fogo dos céus para dá-lo aos homens; o rei dos deuses, porém, vingou-se cruelmente, encadeando Prometeu no Cáucaso e condenando-o a ser a presa permanente de um abutre que lhe devorava o fígado e este sempre renascia. Todavia os homens, daí por diante, ficaram senhores do fogo, o símbolo do intelecto e do conhecimento, que Júpiter não pretendia conceder-lhes. Prometeu foi afinal liberto de seus padecimentos por Hércules.

Aurora (Eros), deusa da alvorada, anunciava a chegada do carro do Sol. Os antigos representavam-na envolta numa veste amarelo-claro com uma tocha como se fora o arauto do dia. Alguns poetas a representam cavalgando o seu cavalo alado Pégaso ou expulsando a Noite e o Sono.

Hiperion, um filho do Céu e da Terra, era o pai do Sol, mas alguns poetas dizem ser ele o próprio Sol.

Sol (Hélio) tinha soberbos altares no mundo antigo. Os egípcios chegaram a consagrar-lhe uma cidade inteira, Heliópolis. Era pelo nome do Sol que as pessoas costumavam jurar fidelidade nos seus compromissos. Hélio era representado conduzindo seus cavalos bafejando fogo, ou como um lindo jovem coroado de raios de Sol.

Faetonte era filho de Hélio. Tendo feito, certa vez, jus a uma recompensa, Faetonte pediu que lhe fosse confiada a missão de guiar o carro do Sol por um dia. Os cavalos notaram logo a diferença e vaguearam pelas camadas superiores; o céu foi ameaçado de uma conflagração e a terra secou até o âmago. Faetonte foi por isso lançado ao rio Erídano.

As Estrelas. Empresta-se uma origem sagrada aos corpos luminosos no firmamento. Sua principal função era ouvir as queixas dos mortais em todas as circunstâncias aflitivas em que se encontrassem. Por sua proximidade do Olimpo supunha-se que os corpos astrais se encarregavam de levar pedidos aos deuses.

Lúcifer (Fosforos) é o planeta Vênus quando visto antes do levantar do sol, como a Estrela Matutina. Era filho de Júpiter e Aurora e líder das outras estrelas; representaram-no conduzindo cavalos brancos através do firmamento como que anunciando a aurora.

Vésper (Héspero) é Vênus simbolizada como a Estrela Vespertina. A Itália e a Espanha, situadas no ocidente, onde o sol se põe, eram chamadas Hespéria ou Terras Ocidentais.

As Helíadas, filhas de Hélio, são notórias pelo desvario quando da morte de seu irmão Faetonte. Prantearam-no durante meses até que os deuses as transformaram em álamos.

Luna (Selene), a Lua, era a maior divindade do firmamento, quase tão importante quanto o Sol. Selene foi identificada posteriormente como Afrodite. Para o poeta grego Píndaro, era o órgão visual da noite. Para o poeta latino Horácio, ela era a rainha do silêncio. Segunda-feira (no francês lundi, do latim Luna dies) era-lhe consagrada.

As Híades eram as irmãs de Hias, cuja grande inclinação pela caça lhe foi fatal. Choraram tão amargamente a morte do irmão que Júpiter, compadecido, as transformou em estrelas. Quando elas apareciam com o sol, os gregos julgavam ser prenúncio de chuva.

As Plêiades eram as sete filhas de Atlas, metamorfoseadas em estrelas porque seu pai havia tentado ler os segredos dos deuses. Foram chamadas Plêiades, que em grego significa "navegar", porque apareciam em maio, mês considerado propício aos marítimos.

Órion foi um famoso gigante e filho de Netuno, hábil caçador cuja morte foi provocada pela inveja de Diana; entretanto, depois que morreu, de tal modo a deusa se arrependeu e o lamentou, que pediu a Júpiter desse a Órion um lugar no céu, e foi atendida.

Sírius ou Cão é assim chamada em homenagem a Sírius, o fiel cão de caça de Órion. Os gregos temiam-no, e ofereceram-lhe grandes sacrifícios humanos. O nome significa "tostar", e Sírius marca a estação de maior calor. Esses dias quentes são chamados dias caniculares.

Calisto era o nome da filha de um rei da Arcádia, amada por Júpiter e transformada em urso pela ciumenta Juno. Arcas, seu filho, estava certa vez caçando na floresta quando viu o urso e preparou-se para alvejá-lo. Júpiter, para evitar a tragédia, acabou com a vida do caçador e do urso e deu-lhes um lugar no céu onde aparecem com o nome de Ursa Maior e Ursa Menor.

Pandora foi a primeira mulher. Júpiter fê-la de barro, dotou-a dos mais extraordinários encantos e deu-lhe uma caixa para que fizesse presente dela ao homem com quem se casasse. Acompanhada à Terra por Mercúrio, Pandora apareceu a Prometeu. Pandora tornou-se o exemplo da tentação. Ela foi para os gregos o que Eva é para nós. Epimeteu, irmão de Prometeu, casou-se com Pandora para obter a caixa que esta possuía, mas sua curiosidade foi punida, porquanto a caixa estava cheia de males, que se derramaram sobre a terra, e esta nunca mais se livrou deles.

Os Ventos eram divindades poéticas, filhos do Céu e da Terra. Seu rei era Éolo. Éolo trazia-os prisioneiros nos abismos e os terríveis ventos rugiam através das cavernas até que Júpiter decidiu pô-los em liberdade. Os antigos bardos aplicavam a cada um deles um mito distinto:

1. Euro, o vento que soprava de sudoeste era representado por um jovem voador, violento e desordenado;

2. Bóreas era o vento do norte, geralmente um homem velho de cabelos todos brancos;

3. Noto (Áuster) era um vento quente e tempestuoso que soprava do sul. Vemo-lo representado segurando uma bilha de água, emblema de chuva que esse vento traz;

4. Zéfiro era o vento suave, oeste ou nordeste. Os gregos gostavam dele porque amenizava o clima de sua terra. Os poetas diziam que esse vento era um jovem doce e sereno com asas de borboleta. A palavra zéfiro significa brisa suave.

Tempestas tinha seus templos na Grécia e em Roma. Essa divindade é representada nos monumentos antigos com uma face colérica e aspecto ameaçador.

DEUSES DO LAR E DA PÁTRIA

Manes era o nome dado aos espíritos dos mortos. Os antigos acreditavam que os manes presidiam aos cemitérios.

Mnemósine era a deusa da memória, como bem o indica o seu nome. Diziam os poetas que era mãe das nove musas, porque à memória a humanidade deve o progresso da ciência.

Mitras era o rei da Pérsia, adorado como o deus do sol. Seu culto foi introduzido em Roma e continuou até os tempos cristãos. Mitras era geralmente representado como um moço com um turbante na cabeça, abatendo um touro para demonstrar o seu poder.

Éris era chamada Discórdia pelos romanos. Irmã de Ares, era uma divindade perigosa que espalhava a discórdia tanto no Olimpo como na terra. Todos temiam-na, de modo que Júpiter acabou por expulsá-la do céu. Os pintores representam-na como uma mulher de aspecto medonho, vestida de andrajos e empunhando um punhal. Sua cabeça às vezes aparece envolvida por serpentes e sua auxiliar costumeira é Belona.

Nique era para os gregos a deusa da Vitória. Era filha de Palas e Estígio e é representada por uma figura alada conduzindo uma palma ou uma grinalda, guiando os cavalos dos vencedores na batalha ou inscrevendo seus nomes em um escudo.

Lares e Penates eram os deuses das lareiras, cujo culto tinha muita projeção entre os antigos. Os lares eram os espíritos dos ancestrais falecidos e julgava-se que ainda tomavam parte nos afazeres domésticos. Eram representados por pequenas estátuas, de modo que podiam ser transportados pelas famílias quando mudavam de residência. Nossas relíquias de família são muitas vêzes chamadas "lares".

Os Gênios (Daemon) eram os patronos de cada homem; presidiam aos nascimentos, e recebiam sacrifícios nas datas dos aniversários. Alguns eram bons gênios, outros maus. Os bons eram representados por um belo rapaz coroado de flores, os maus como um velho horrendo conduzindo uma coruja, a ave do mau presságio ou desgraça.

Fortuna, filha da Noite e do Caos, era cega e líder de todos os deuses e todos os humanos, de cujo destino ela tomava conhecimento através de seus três ministros: as Parcas. Somente os Oráculos podiam prever e revelar o que se achava escrito no livro inexorável do Destino. A Fortuna é representada com uma cornucópia transbordante de riqueza, significando que ela é a soberana da abundância, ou com um cetro, emblema de poder e ainda conduzindo uma roda, símbolo de sua versatilidade e instabilidade.

Esculápio, era filho de Apolo e mortal, tornando-se famoso pela sua habilidade na arte de curar doenças. Muitas vezes logrou restituir à vida os mortos, mas Júpiter, enfurecido pela inveja, matou-o. A lenda tornou-o o pai dos médicos. Nas estátuas ele é representado sentado num trono com uma das mãos repousando sobre a cabeça de uma serpente, como que a fazer patente a sua vitória sobre o mal.

Hígia, a deusa da saúde, era filha de Esculápio. Os antigos emprestavam-lhe a figura de uma mulher velada a quem as matronas consagravam seus anéis de cabelo. Deu origem à palavra higiene.

Morfeu era filho de Sono e deus dos sonhos. Os artistas dão-nos a figura de um menino cercado de papoulas, suas flores favoritas, porque as papoulas propiciam sonhos.

Sono (Hipnos) era o deus do sono. A palavra latina somnus deu origem à francesa sommeil e à nossa sonambulismo.

DEUSES DO CAMPO E DA CIDADE

Vertumno era deus dos jardins e dos pomares em Roma, casado com Pomona, deusa das colheitas. O primeiro produto a ser colhido era ofertado a esse deus. O casal feliz costumava envelhecer e remoçar todo o ano e nunca morria, sugerindo a alternância periódica das estações.

Hímen, o deus dos casamentos, era entre os antigos um belo jovem coroado de flores conduzindo numa das mãos uma tocha e na outra um véu amarelo destinado a cobrir a noiva.

Flora era a deusa das flores entre os romanos. Casou-se com o vento Zéfiro em maio e ambos têm lugar representativo na Primavera.

Pomona, uma linda ninfa, presidia aos jardins em Roma. Era representada sentada numa cesta de flores e frutos, carregando uma cornucópia.

Pales, deusa dos pastores romanos. Seu festival, Pália, coincidia todo ano com a data da fundação da cidade de Roma por Rômulo.

Términus era uma deidade romana que presidia às fronteiras e os limites, vingando qualquer usurpação da terra. Era a princípio representada na forma de uma grande pedra quadrada, mas depois os artistas deram-lhe uma cabeça humana repousando sobre um marco.

Jano é tido como o primeiro que reinou na Itália. Tendo, certa vez, oferecido hospitalidade a Júpiter, foi-lhe concedido o dom de conhecer o passado e o futuro. Como guardião dos portões foi representado pelos artistas com dois rostos, olhando para ambos os lados. Os romanos fizeram de Jano um grande guerreiro e por isso seu templo apenas era aberto em tempo de guerra. É interessante notar que esse famoso templo ficou fechado apenas três vezes em toda a história romana. Janeiro originou-se da palavra Jano e era o primeiro mês do calendário romano.

DEUSES DAS ÁGUAS

Oceano. Para os antigos o oceano era uma vastíssima corrente de água envolvendo a terra. Oceano, filho de Urano e da Terra, é o principal deus das águas. Sendo tão velho como o mundo, Oceano é representado como um homem idoso sentado no mar e derramando água.

Tétis, filha de Urano e da Terra, casou-se com seu irmão Oceano e deu a luz a três mil ninfas, as Oceânidas. Tétis é geralmente vista dirigindo uma concha, sua carruagem, seguida por um séquito de delfins, tritões e Oceânidas.

Nereidas. Nereu, filho de Oceano e da Terra, teve 50 filhas, as Nereidas. É representado como um velho pacífico e bondoso, cheio de ponderação e justiça, e as Nereidas como lindas moças cavalgando delfins e com os cabelos adornados de pérolas. As Nereidas eram as ninfas do Mediterrâneo, assim como as Náiades o eram das águas frescas e as Oceânidas dos oceanos.

Netuno (Posseidon) era filho de Saturno e Réia, irmão de Júpiter e Plutão. Quando os três irmãos dividiram as riquezas de Saturno, Júpiter ficou com o céu, Plutão com as regiões inferiores e Netuno dirigiu os cavalos de seu carro para o mar. As estátuas geralmente representam o deus das águas com uma longa barba e empunhando um tridente. Oceano era o mais antigo deus das águas. Netuno pertencia a uma família mais recente, mas, como seus irmãos Júpiter e Plutão obteve supremacia sobre os deuses mais antigos.

Anfitrite, esposa de Netuno, mãe de Tritão é representada dirigindo uma concha no mar, tendo como companhia as Nereidas.

Tritão, filho de Netuno e Anfitrite, era um semideus, meio homem, meio peixe. Era o arauto de Netuno.

Proteu, um deus marítimo, era o pastor de Netuno, cujos rebanhos compreendiam focas, leões-marinhos e todas as espécies de grandes peixes. Como recompensa dos seus serviços recebeu de Netuno o dom da profecia. O famoso pastor podia ostentar as mais diversas formas e desaparecer quando bem entendesse. O nome de Proteu é muitas vezes usado para descrever alguém que se desloca com rapidez de um lugar para outro ou que muda de rosto com facilidade.

Glauco, dotado com o dom especial da profecia, era o adivinho de Netuno e predizia os acontecimentos. Suas estátuas se parecem com as de Tritão, diferenciando-se pela barba, que é branca e gotejante; seus braços são barbatanas e o peito é coberto de escamas.

As Harpias eram monstros com fisionomias de velhas e corpos de abutres. Levavam a fome a todos os lugares onde passavam e tinham um terrível mau cheiro. De onde fossem expulsas sempre retornavam. Júpiter e Juno lançavam mão delas quando desejavam punir alguém.

Circe era filha do Sol. Atribuíam-lhe o poder de fazer caminharem as estrelas no céu. Os seus encantos eram tais que os navegantes mal se podiam furtar a eles. Com seus estranhos poderes transformava homens em leões, tigres e outros animais selvagens. Transformou a tripulação de Ulisses em porcos, mas, com a ajuda de Mercúrio, Ulisses conseguiu forçar a feiticeira a torná-los à forma primitiva.

Caribde, filha de Netuno, tendo roubado uma parte do rebanho de Hércules, foi abatida por Júpiter e transformada em um perigoso rodamoinho, no estreito de Sicília.

Cila, uma linda ninfa, foi transformada em monstro pela ciumenta Circe. Aterrorizada pela sua fealdade, lançou-se ao mar e tornou-se um abrolho, que teve o seu nome e fica entre a península italiana e a Sicília. Os navegadores antigos temiam Cila e Caribde, pelo grande perigo que apresentavam. Quando empregamos a expressão "está entre Cila e Caribde", queremos dizer que um indivíduo estará de qualquer modo em perigo.

As Sereias eram três ninfas a quem os Oráculos tinham predito vida enquanto pudessem deter os navegantes em suas rotas. Tal encargo executavam graças ao seu canto mavioso, que arrebatava e escravizava, resultando disso o naufrágio. Ulisses obturou os ouvidos da tripulação com cêra e deu ordem para o amarrarem ao mastro. À proporção que o navio se aproximava do local, Ulisses ia sendo dominado pela ternura do canto; entretanto, foi logo amarrado e os homens não ouviram nada, de modo que se houveram muito bem nessa aventura. Alguns artistas pintam as Sereias como moças metade mulheres, metade peixes; outros mostram-nas como seres metade humanos, metade pássaros.

As Górgones, que eram três famosas irmãs chamadas Esteno, Euríale e Medusa, viveram muito tempo no oceano, nos confins da terra. Medusa, rainha que ofendeu Atenas, teve o seu cabelo transformado em serpentes e seus olhos tinham o poder fatal de transformar em pedra tudo aquilo que fitassem. As Górgones são representadas com enormes cabeças e cabelos entremeados de serpentes. Em arte, a melhor cabeça de Medusa é uma obra-prima de Leonardo da Vinci existente numa das galerias de Florença.

Os Ciclopes, três monstruosos gigantes, filhos de Netuno, eram tão horrorosos com um só olho que Júpiter os mandou para as regiões mais inferiores. Tornaram-se obreiros nas forjas de Vulcano. O mais famoso Ciclope foi Polifemo.

Os Rios eram personificados como filhos sagrados de Oceano e Tétis; eram em número de três mil e os antigos nunca cruzavam um curso d'água sem lhe dirigir uma prece.

As Náiades presidiam aos rios e fontes. Gravuras mostram-nas como jovens ninfas com pernas e braços nus adornados de plantas aquáticas.

Aretusa era uma ninfa da floresta que amava a caça. Um dia, quando se banhava num rio, Alfeu, deus do rio, enamorou-se dela. Aretusa implorou a Diana que a ajudasse a libertar-se e a deusa transformou-a em fonte. Este mito tem sido o encanto dos poetas.

Ladon foi um rio famoso pelo encontro que tiveram às suas margens Sírinx e Pão A ninfa, temendo o amor de Pã, foi transformada em juncos que continuam a crescer incessantemente às margens dos rios. Desses juncos Pã fez a sua flauta de sete sopros.

As Fontes eram filhas de Oceano e Tétis, para as quais se celebravam rituais na Grécia. Inspiradoras das Musas, as fontes mais conhecidas eram: Aganipe, Hipocrene, Castália e Pirene. A Fonte da Juventude ficou famosa pelo seu poder de devolver a mocidade. Ponce de Leon procurou-a inutilmente.

DEUSES DAS MONTANHAS E DOS BOSQUES

As Montanhas eram tidas pelos antigos como gênios, representando, cada uma, produto especial da terra.

Os Faunos (Sátiros) estavam espalhados por toda a região e principalmente nas proximidades de Baco. Os poetas dizem que eram o terror dos pastores e das ninfas.

Dafne era um pastor da Sicília a quem as musas concederam o amor à poesia. Foi levado para o céu por seu pai, Hermes.

Aristeu era filho de Apolo e criado por ninfas que lhe ensinaram a cultivar oliveiras e a apicultura.

Priapo representava a frutificação da Natureza. Os gregos adoravam-no como deus dos jardins. Era geralmente representado num busto com chifres de carneiro e uma grinalda de folhas ou mesmo carregando alguns frutos.

Mársias era um sátiro que disputou a Pã a invenção da flauta. Era tido como um grande músico, o primeiro que a escreveu. ApoIo ficou com inveja e deu-lhe morte horrível. O infeliz Mársias é frequentemente representado tão vergado como uma árvore em vias de ser derrubada, ou como um sátiro tocando uma gaita pastoril.

Pã era o deus de todos os pastores e rebanhos. Era representado como um feio sátiro com corpo de cabra, com chifres e cabelos e barba em desalinho. Muitas vezes conduz uma flauta que se supõe seja de sua invenção. Pã geralmente aterrorizava aqueles de quem se aproximava e a palavra pânico deve-lhe a origem. Certa vez teve uma disputa com ApoIo, a respeito de música, e este naturalmente saiu vencedor.

Eco fazia parte do séquito de Juno. Apaixonou-se por Narciso, mas desdenhada por ele, isolou-se numa caverna e ali morreu, embora sua voz continuasse habitando as rochas. Eis como os gregos explicavam o eco.

Narciso era um belo jovem que, tendo visto sua imagem refletida nas águas de um lago, dela se enamorou. Permaneceu longo tempo admirando o rosto refletido, até que criou raízes e transformou-se numa flor que tem o seu nome.

As Hamadríades eram ninfas cujas vidas dependiam das de certas árvores com as quais, supunha-se, viviam e morriam. Homero mostra-as fugindo das árvores.

As Dríades eram ninfas que presidiam às árvores. Eram representadas como mulheres com raízes na parte inferior do corpo e as espáduas cobertas de cabelos. Usavam folhas de carvalho como coroas.

As Florestas eram os lugares primitivos onde os homens se reuniam para adorar seus deuses. Parecia a eles que na sombra das florestas os deuses desciam mais facilmente à terra. As florestas mais veneradas eram Epidáuria, consagrada a Esculápio, pai da medicina; Neméia, onde Hércules era festejado; Dodona, onde os carvalhos prediziam os acontecimentos.

Os Vulcões, principalmente o monte Etna, na Sicília, eram as forjas de Vulcano e se comunicavam com o Inferno. Os antigos faziam uso dos vulcões para predizer o futuro. Lançavam no seu interior objetos preciosos, até mesmo vítimas humanas. A palavra vulcão vem de Vulcano, o ferreiro dos deuses que se dizia morar numa montanha de fogo.

As Hespérides, também chamadas Atlântides, eram filhas de Atlas e donas de um famoso jardim. O jardim das Hespérides tinha frutos de ouro e era guardado por um dragão com cem cabeças e várias vozes. Figurou entre os doze trabalhos de Hércules a morte do dragão e a posse dos ditos frutos.

Atlas, um dos titãs dominados por Júpiter, foi transformado em montanha e condenado a suportar a abóbada celeste sobre os ombros. Os Gregos criaram essa fábula por causa do monte Atlas na África, supondo que o seu pico tocava os céus. Atlas ainda é representado como um gigante de pé, dentro do mar, carregando um globo sobre os ombros.

Monte Hélicon era um dos lugares de habitação preferido pelas Musas. Hélicon ficou também famoso em virtude do rio Hipocrene, que nascia no seu cume; pelo túmulo de Orfeu e pela floresta sagrada onde eram celebrados rituais em honra a ApoIo.

Parnaso era uma das mais altas montanhas conhecidas no mundo antigo e tinha dois famosos picos, um consagrado a ApoIo e às Musas e outro a Dionísio.

OS MUNDOS INFERIORES

As regiões inferiores eram os lugares onde se abrigavam os mortos. Compreendiam quatro regiões diferentes: Érebo, Inferno, Tártaro e Elísio, e eram banhadas por quatro rios: Estígio, Aqueronte, Cocito e Lete.

Tártaro era o palácio dos deuses do mundo subterrâneo. Espraiava-se por baixo da terra e era cercado por uma tríplice muralha de bronze. Nenhum mortal penetrou jamais no Tártaro.

Elísio era a residência das almas virtuosas, depois da morte. Alguns dos antigos situavam-no em uma ilha da África, outros na Itália.

Inferno era o lugar terrível de todas as punições e torturas, uma terra de fogo que se supunha estar cercada por tremendos pântanos e rios abrasadores, de onde baldadas eram as tentativas de fuga.

Érebo era o lugar subterrâneo mais próximo da terra, caminho para o Inferno ou para os Elísios. Os antigos julgavam que as sombras dos infelizes que não haviam sido enterrados vagueavam por lá durante cem anos, antes de saberem onde iriam ficar localizados.

Estígio era um rio famoso que descrevia círculos em redor do Inferno. Suas águas lodosas irrigavam as terras mais tenebrosas. Os deuses sempre juravam pelo Estígio.

Aqueronte era um rio como o Estígio, representado por um homem muito idoso envolto num manto enevoado, tendo perto uma coruja.

Cocito, um rio infernal, desaguava no Aqueronte; sua corrente era constituída pelas lágrimas dos maus. Era o rio das lamentações.

Plutão era o terceiro filho de Saturno e Réia; couberam-lhe por partilha as regiões inferiores. Plutão habitava o Tártaro. Pela sua fealdade não pôde encontrar uma esposa e teve de raptar Prosérpina a quem fêz rainha. Seu atributo é o cipreste, cuja folhagem escura lembra a melancolia e a tristeza.

Prosérpina era uma linda donzela a quem Plutão raptou para fazer rainha. Os antigos acreditavam que ninguém poderia morrer sem que Prosérpina tivesse cortado o fio de sua vida com o auxílio de Átropos.

Caronte, filho de Érebo e Nox, transportava as sombras dos mortos através do Estígio e do Aqueronte. Caronte era velho e pouco sentimentalista e os que não traziam dinheiro não podiam entrar na barca. Eis por que os antigos nunca deixavam de pôr uma moeda na boca de seus mortos; aqueles que não tinham sido enterrados não ficavam habilitados à travessia e a lenda diz que vagueavam por cem anos ao longo das margens do rio. Caronte é representado em trajes sombrios, manchados pelo lodo escuro das águas imundas, de pé na barca e manejando os remos.

Cérbero, o cão de três cabeças de propriedade de Plutão, era o porteiro do Inferno. Seu dever era evitar que os mortos saíssem de suas prisões e que os curiosos ali penetrassem antes de haverem morrido. Em medalhas antigas Cérbero sempre está perto de Plutão, mas também aparece acorrentado ao lado de Hércules, que o arrancou das camadas inferiores.

Radamanto era um dos três juízes com Éaco e Minos, diante de quem os mortos compareciam, depois de enterrados. Seu tribunal era chamado o Campo da Verdade, porque nem a mentira nem a calúnia dele se aproximavam. Radamanto é representado num trono segurando um cetro.

Éaco era um dos três juízes dos mortos, juntamente com Radamanto e Minos. Éaco foi o pai de Peleu e avô do famoso Aquiles.

Minos, irmão de Radamanto, era o outro juiz. Vemo-lo sentado entre as sombras dos mortos.

Nêmesis é muitas vezes tomada, erradamente, por uma das Fúrias. Nêmesis deveria ser chamada a deusa da compensação. Sua função era estabelecer o equilíbrio entre a felicidade e a desgraça atribuídas à humanidade. Se houvesse notícia de que uma pessoa era muito feliz, Nêmesis endereçava-lhe preocupações para estabelecer uma compensação.

Tânatos ou Morte era a implacável inimiga da humanidade. Habitava o Tártaro. Diziam que essa divindade tinha coração de ferro e entranhas de bronze. Alguns escultores a apresentam com os olhos fechados, véu sobre a cabeça e armada de foice, o emblema da morte.

Lete. Depois de permanecerem durante algum tempo no Elísio ou no Inferno, os mortos tinham o direito à reencarnação em outro corpo na terra, mas, antes de deixar as regiões abismais, bebiam água no rio Lete que lhes apagava da memória a lembrança de fatos passados. Os termos letal e letargia se originaram de Lete, que significa morte, sono ou esquecimento.

As Fúrias eram os ministros da vingança dos deuses sobre a humanidade. Existiam três principais, a saber: Alecto, Tisífone e Megera.

Esses nomes de deuses e deusas e outras criações dos homens de imaginação vívida daqueles tempos, longe estão de nos cansar. Tudo que era espetacular e misterioso foi tomado por um deus e seus atributos variáveis tornaram-se espinha dorsal da poesia antiga. O conhecimento da mitologia, chave que descerra uma compreensão do mundo em sua bela adolescência, ainda hoje constitui uma fonte inspiradora.

(Extraído da obra "Tesouro da Juventude", vol. 15, p. 323 e ss.)

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